Publicado por Redação em Notícias Gerais - 23/11/2015

O que faz da eleição de Macri na Argentina um acontecimento único

Nova lei do direito de resposta já está valendo e dá direito à retratação mesmo sem o ofendido entrar na Justiça. Entenda.

Vitorioso, candidato da oposição encerra 12 anos de governo kirchnerista

Vitorioso, candidato da oposição encerra 12 anos de governo kirchnerista.

No comitê de campanha do opositor Mauricio Macri em Buenos Aires uma frase era ouvida a plenos pulmões na noite de domingo: "Sim, é possível".

E embora usurpado da campanha do americano Barack Obama à presidência em 2008, o lema não poderia definir melhor a trajetória deste engenheiro de 56 anos que, por uma margem apertada de votos, se tornou o novo presidente argentino.

Há um ano, o prefeito de Buenos Aires tinha apenas um papel secundário na corrida presidencial. A partir do próximo dia 10 de dezembro, quando a atual presidente, Cristina Kirchner, deixará a Casa Rosada, ele passará a comandar a segunda principal economia da América do Sul.

Ao derrotar Scioli nas urnas, Macri encerra 12 anos de governo kirchnerista ─ iniciado com Néstor Kirchner (2003-2007), morto em 2010, e concluído por sua viúva, Cristina (2007-2015).

Mas há outras razões que tornam a vitória do candidato de oposição única. São elas:

1. Nem radical nem peronista

No próximo dia 10 de dezembro, Macri se tornará o primeiro presidente depois do retorno da democracia, em 1983, que não é peronista nem radical.

Nesse sentido, seu perfil político se distancia de seus antecessores no cargo ─ Raul Alfonsín, Carlos Saúl Menem, Fernando de la Rua, e o casal Kirchner.

O prefeito da cidade de Buenos Aires, que ganhou popularidade em todo o país como presidente do clube de futebol Boca Juniors nas décadas de 1990 e 2000, conseguiu unir peronistas, radicais e outras correntes políticas com um objetivo comum: acabar com o kirchnerismo.

Desde 2007, ele é o líder da 'Propuesta Republicana' ou PRO, partido nascido após a crise de 2001 com a proposta de renovar a política nacional.

Macri lidera uma aliança não-peronista de partidos, mas não antiperonista.

Em seu discurso de vitória na noite de domingo, o prefeito de Buenos Aires subiu ao palco junto a líderes da histórica União Cívica Radical, um dos partidos mais antigos do país, e da Coalizão Cívica.

Macri pediu união do povo argentino e afirmou não querer governar motivado por revanchismo ou vingança.

Mas o novo presidente precisará do apoio de governadores e sindicatos de trabalhadores, ligados historicamente ao peronismo, para assegurar a governabilidade.

2. O primeiro conservador?

Macri é também o primeiro líder de centro-direita desde o retorno da democracia.

O PRO, seu partido, é considerado um partido de centro-direita. Apesar disso, seus assessores de campanha queriam evitar a todo custo apresentá-lo como representante deste espectro político.

Macri se opôs à nacionalização de empresas privadas, como a YPF e a Aerolineas Argentinas, mas durante a campanha se mostrou favorável a mantê-las sob o controle do Estado.

Em 2010, quando a Argentina votou a lei permitindo casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sua companheira de chapa e agora vice-presidente do país, Gabriela Michetti, foi uma das principais vozes contra a adoção de crianças por homossexuais.

Macri também é contra o aborto e a descriminalização da maconha (como a atual presidente, Cristina Kirchner).

E na esfera econômica tem se mostrado favorável às políticas de livre mercado, talvez o maior contraste com o partido atualmente no poder.

No entanto, o PRO e o Cambiemos argumentam que são uma alternativa política e inclusiva de centro. Os partidos alegam que pretendem manter e melhorar alguns dos programas sociais mais bem sucedidos do governo Kirchner, como a Asignación Universal por Hijo, uma espécie de Bolsa Família argentino.

3. Novo ator político

O partido que Macri criou não se enquadra na dinâmica da política tradicional da Argentina e, em menos de uma década, posicionou-se como força hegemônica na capital, na província de Buenos Aires e no país.

Ao grupo juntaram-se políticos de centro-direita, empresários, ativistas de ONGs e jovens profissionais que não tinham experiência anterior em comícios.

Nos últimos meses, eles criaram técnicas de marketing nunca antes vistas na política nacional, como distribuir doces, sorvete ou pipoca na rua.

Também encheram balões em espaços públicos e espalharam, com a ajuda de sua legião de jovens voluntários, slogans emocionantes que clamavam por mudança, despertando críticas dos oposicionistas.

Além disso, o PRO, que até um mês atrás governava apenas a cidade de Buenos Aires, tem agora uma estrutura poderosa fora da capital, graças aos acordos com os radicais e outros grupos locais, um elemento-chave na política tradicional .

Seus resultados têm sido especialmente positivos nas províncias de Córdoba, Santa Fé e Mendoza.

E na província de Buenos Aires encerraram anos de governo peronista pela primeira vez após o retorno da democracia.

4. Congresso

O recém-eleito Macri governará sem o apoio da maioria no Congresso.

Tanto o Senado quanto a Câmara dos Deputados tem maioria kirchnerista, do partido Frente para a Vitória.

Seu governo terá de buscar consenso não só para unir as diferentes sensibilidades de sua coalizão, mas também para convencer parlamentares de outros grupos a apoiar suas propostas sobre questões importantes, como a nomeação dos juízes do Supremo Tribunal ou a negociação com os chamados "fundos abutre", credores da Argentina.

Macri espera que, com uma grande acordo de governabilidade, poderá colocar a seu lado governadores que possam adicionar peso político às negociações com o Congresso, os sindicatos e outros atores da vida política nacional.

5. Novo mapa da região

"Temos boas relações com todos os países" na América Latina, disse Macri em seu discurso no domingo.

E com a vitória do oposicionista, o cenário político na América Latina também pode mudar.

Se Cristina foi uma forte defensora de seu colega venezuelano, Nicolás Maduro, Macri já deixou claro que lutará ativamente para libertar Leopoldo López e outros políticos da oposição presos na Venezuela.

A mulher de López, Lilian Tintori, estava em Buenos Aires no domingo e parabenizou Macri pela vitória.

Além disso, Macri será o único presidente de centro-direita do Mercosul, ao lado do paraguaio Horacio Cartes.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, apoiou abertamente o governista Daniel Scioli durante a campanha eleitoral.

Fonte: BBC Brasil


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