Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 03/03/2026

Desigualdade eleva burnout e afasta mulheres no trabalho

Diferenças salariais, maternidade penalizada e falta de políticas ampliam o adoecimento feminino e desafiam o RH a rever práticas de gestão e cultura.

 

O Brasil enfrenta um cenário alarmante no campo da saúde mental no trabalho. Com recorde de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, a desigualdade de gênero emerge como um dos principais fatores de risco para o adoecimento das mulheres no ambiente corporativo.

Dados do IBGE e do DIEESE indicam que mulheres recebem, em média, 21% menos que homens na mesma função. Entre mulheres negras, a disparidade pode alcançar 47%, evidenciando um recorte ainda mais crítico quando gênero e raça se cruzam. Para especialistas, essas diferenças vão além da esfera econômica e impactam diretamente a saúde física e emocional das profissionais.

De acordo com a médica do trabalho Ana Paula Teixeira, autora do livro Quando o Trabalho Dói, a desigualdade de gênero deve ser tratada como um fator epidemiológico. “Não se trata apenas de remuneração. É um conjunto de pressões estruturais que aumentam o risco de adoecimento”, afirma.

Os dados reforçam esse cenário. Estudos recentes apontam que as mulheres representam cerca de 60% dos diagnósticos de Síndrome de Burnout no país. A sobrecarga, frequentemente associada à chamada “tripla jornada”, e a necessidade constante de validação em ambientes ainda predominantemente masculinos contribuem para esse quadro.

A situação é ainda mais sensível quando se observa a realidade de mulheres negras, que ocupam, em sua maioria, posições mais vulneráveis no mercado de trabalho. Segundo a especialista, a combinação entre racismo estrutural, menor acesso a oportunidades e redes de apoio limitadas intensifica o risco de esgotamento físico e emocional.

A dor invisível nas organizações

Para especialistas, o aumento do adoecimento feminino expõe fragilidades estruturais no modelo de gestão das empresas. A lógica de produtividade linear, desconsiderando as especificidades biológicas e sociais das mulheres, tem se mostrado insustentável.

“O trabalho não pode ser o espaço onde a vida adoece. Ignorar as particularidades femininas compromete não apenas as pessoas, mas a sustentabilidade das próprias organizações”, destaca Ana Paula.

A maternidade segue como um dos principais pontos de tensão. Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que quase metade das mulheres perde o emprego até dois anos após o parto. Esse cenário reforça a percepção de que a maternidade ainda é vista como um custo — e não como parte da realidade social das organizações.

Além disso, temas como ciclo menstrual e saúde hormonal continuam fora das políticas corporativas. Para especialistas, essa lacuna revela uma desconexão entre gestão de pessoas e as reais necessidades das profissionais.

RH no centro da transformação

Diante desse cenário, cresce a pressão para que empresas avancem de forma estrutural na agenda de equidade e saúde mental. Entre as ações recomendadas estão auditorias salariais com recorte de gênero e raça, programas de apoio à maternidade, políticas de flexibilidade e iniciativas efetivas de combate ao racismo corporativo.

Mais do que iniciativas isoladas, especialistas defendem uma mudança de mentalidade. O cuidado com as especificidades femininas deixa de ser um diferencial e passa a ser um componente estratégico para a sustentabilidade dos negócios.

Para o RH, o desafio é claro: integrar performance, inclusão e bem-estar em uma mesma agenda. Em um mercado cada vez mais exigente, organizações que ignoram essas dimensões correm o risco de comprometer não apenas seus resultados, mas sua própria capacidade de se manter competitivas no longo prazo.


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