Publicado por Redação em Notícias Gerais - 02/06/2015

Número de moradores de rua em São Paulo cresce 16% em seis anos

Morador de rua

Conheça histórias dessa população cuja maioria é de homens e já reúne quase 16 mil pessoas

“Não tem canto certo, arrumo um e vou deitar”, essa é a realidade de Adenildo Mariano e de outras milhares de pessoas na cidade de São Paulo que deixaram de ter profissão, família e passaram a fazer parte de uma triste estatística: a das pessoas em situação de rua. Eles já são 15.905, segundo levantamento da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) divulgado no último mês.

O número é maior, por exemplo, que o de habitantes do bairro Barra Funda, na zona oeste de São Paulo (14.383). E, nos últimos seis anos, teve aumento de 16%.

Para Rubens Adorno, professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, que trabalha com a temática de moradores de rua, uma das causas do avanço, que acontece em todo o mundo, é a marginalização de parte da sociedade.

— Temos um sistema de trabalho que, cada vez mais, exige uma especialização e uma reprodução de uma pobreza que mal chega ao final do primeiro grau.

Mas existe uma notícia a se comemorar. Apesar do crescimento, os saltos diminuíram ao longo dos anos. De 2009 a 2011, o número passou de 13.666 para 14.478 e comparando 2015 com 2011, o quantitativo aumentou apenas 10%.

Já os perfis continuam sendo os mais diversos. O que aproxima essa população, muitas vezes, é a fome.

Adenildo veio da cidade de Quixaba, no interior de Pernambuco, há um ano. Em vez da mala, carrega uma mochila velha com cobertas, uma troca de roupa e uma garrafa de água. Veio parar em São Paulo após um desentendimento familiar. Aqui, reclama da chuva e sente falta do pai, já morto.

— É ruim quando chove, difícil [achar] cobertura. Passei muita fome e peguei comida do lixo.

 

Ele é uma daquelas pessoas que, se deixar, fala o dia todo, emenda um assunto no outro, nem precisa perguntar porque ele já vai contando. Numa gana de colocar tudo para fora, se expressa numa velocidade de engolir as palavras. Às vezes, é preciso pedir para repetir e alguns desabafos parece já ter decorado.

— Quando pede esmola, o cara manda a gente trabalhar, mas não tem oportunidade [...] Eu não fumo, não roubo, não bebo.

Com 39 anos, o nordestino representa bem o perfil que predomina nas praças e nas calçadas de São Paulo. Segundo a pesquisa da Fipe, a maior parte da população de rua é do sexo masculino e tem quase 40 anos.

Para o professor Rubens Adorno, a predominância dos homens sobre as mulheres é fruto da própria organização da sociedade civil.

— Como a sociedade constrói a relação em que o homem é colocado como provedor, quando ele não consegue ser um provedor, acaba não voltando para a família.

Ele também relaciona o fato com a homossexualidade de alguns.

— Não assumem e fogem com vergonha. É visível.

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“A rua é uma m....”

Fábio está estirado em um colchão velho na calçada da rua Oscar Freire, uma das vias mais famosas de São Paulo. O dia já amanheceu, a movimentação dos carros é constante, mas ele continua de olhos fechados.

Ao ser acordado pela reportagem, mostra a cara de sono e o olhar desconfiado. Já passava do meio-dia de uma sexta-feira. Mas, na rua, que diferença a hora faz? De meias, procura o sapato. Com medo de perder, Fábio não guarda o calçado, ele esconde, e pega o tênis embaixo do colchão.

Ali estava havia dois dias, mas perambula por São Paulo há cinco anos. Diz que visita a única filha que tem. Uma decepção amorosa após um casamento de quatro anos o levou a essa situação. Em certo momento, deixa transparecer que uma mudança em sua vida seria bem-vinda.

— A rua é uma m.... e eu continuo nela porque eu não tenho juízo.

Em algumas noites, escolhe os abrigos para passar as horas. Assim como ele, dos mais de 15 mil moradores da capital paulista, 8.570 fazem uso dos equipamentos de acolhimento. No Estado de São Paulo, são 248 serviços, incluindo abrigos e casas de passagem.

Luz da lua

Mas ainda há os que rejeitam e preferem a luz da lua e a brisa noturna. Silvia já experimentou drogas e levou uma porrada na cabeça. Dorme na Sé, onde está a maior parte da população de rua da cidade, seguida do bairro da Mooca e da Lapa.

— Eu experimentei uma vez dois comprimidos, mas deixa a gente caída no chão. Eu não quero mais.

Do Ceará, assim que chegou a São Paulo, arrumou um emprego como doméstica, mas a sua função há oito anos é ser sobrevivente e tem uma tática para isso.

— Não é difícil, não para mim que fico na minha.

Dados da Fipe apontam que 2.326 pessoas do sexo feminino vivem pelas ruas e avenidas. O número representa apenas 14,6% da totalidade. São 13.046 homens no total.

A coordenadora de proteção social especial da Prefeitura de São Paulo, Isabel Bueno, analisa que a fuga das mulheres muitas vezes acontece por problemas psiquiátricos. É uma questão de saúde mental. O número baixo também é resultado de uma resistência emocional maior do público feminino.

— Se você escuta histórias de muitos deles, tem o rompimento afetivo e a tendência do homem é sair. A mulher tem um grau de sustentabilidade maior por causa dos filhos.

 

Fonte: Portal R7


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